Empresas colocam “algemas de ouro” para segurar executivos

Supersalários, bônus milionário e pacote de benefícios que incluem carro e pagamento de academia são alguns dos “mimos” que multinacionais oferecem para seus profissionais “top”.

Imagine ganhar só de bônus anual 16 vezes o seu salário. Sim, é possível.  Pelo menos para CEOs  (Chief Executive Officer ou presidente executivo), que não têm um salário baixo, de grandes empresas, inclusive na RMC (Região Metropolitana de Campinas). Os diretores, em média, podem ganhar com premiação oito vezes o salário. Calma, pode ser “pior”. Nos EUA, um CEO pode ganhar até US$ 30 milhões de bônus anual e, um diretor, US$ 2 milhões. No Brasil, os salários dos executivos são maiores, porém os bônus são menores que os dos americanos. Um CEO na região de Campinas pode ganhar R$ 90 mil por mês de salário, além da participação nos resultados (bônus).

A vida de altos executivos não é feita de cifras pequenas. Eles são muito cobrados em resultados e, muitas vezes, passam mais do seu tempo voando entre um país e outro, em reuniões estafantes e conectados full time. Porém, as empresas que reconhecem neles a porta de entrada de lucro fazem de tudo para fixá-los. Algumas, colocam “algemas de ouro” para prender os executivos.

Além do supersalário e bônus (premiação associada à superação de metas), as empresas oferecem um “pacote de benefícios”, que são muito negociáveis de um executivo para outro, mas que em geral envolve carro de alto padrão (R$ 150 mil) da empresa à disposição do profissional, plano de saúde de nível elevado para a família, cursos de especialização para o profissional, educação para os filhos, gastos da esposa e, no caso de expatriados (profissionais que são trazidos de outros países), a empresa oferece até casa sofisticada.

As multinacionais também têm políticas de incentivar a formação e o desenvolvimento profissional dos funcionários, com cursos e viagens. Os profissionais também têm vantagens de trabalhar em ambientes que priorizam a qualidade de vida, a saúde, a ergonomia.

A cultura de explorar o profissional até a última gota de sangue está ultrapassada. O executivo tem que ter tempo para a família, o esporte, a vida social, o hobby, a cultura.  O equilíbrio é a base de tudo, inclusive para o sucesso profissional.

Também está obsoleta a ideia de que o profissional tem que fazer hora extra. O importante agora é o resultado. Muitas empresas dão a oportunidade de o executivo trabalhar home office algumas vezes na semana.

De acordo com a coach Paulette Alves Melo, consultora da FGV-IBE, os altos executivos na região de Campinas estão nas indústrias de metalmecânica e de tecnologia. Em São Paulo, os executivos estão mais no setor financeiro. Na capital, os executivos ganham até 30% a mais que os executivos da região. Porém, segundo ela, há muitos líderes no interior que têm rendimentos altíssimos. “Há uma curiosidade interessante nesse universo. Os executivos de São Paulo gostam de ostentar. Mas os executivos do interior paulista são mais recatados e gostam de guardar, de acumular”, comenta Paulette.

Um CEO na região de Campinas, segundo Paulette, pode ganhar em torno de R$ 90 mil por mês em salário e mais os bônus, que chegam a 16 salários por ano. Nem sempre podemos cruzar com eles pelas ruas, afinal, alguns andam em jatinhos.

Um vice-presidente “Top na RMC” pode ganhar salário de R$ 70 mil, além dos bônus que chegam a R$ 1 milhão por ano.

Entretanto, uma grande parcela dos altos executivos de Campinas ganha salários entre R$ 45 a R$ 50 mil por mês, comenta Paulette. Dá para contar nos dedos os profissionais que ganham salários maiores que estes na região, porém, para muita gente o que estes executivos recebem por mês equivale ao que ganham no ano todo. E, para outras pessoas, nem em 12 meses.

“Mas também há a realidade de multinacionais coreanas na região, que pagam salários menores que as americanas e europeias, oferecendo R$ 25 mil por mês de salário, sem bônus anual, para seus diretores”, ressalta Paulette.

A coach alerta para a tendência de achatamento das empresas, que estão ampliando a base e estreitando os cargos e salários. “Há mais gente na média gerência e menos na alta gerência”, avisa Paulette.

Uma pesquisa da consultora Carina Budin com 1.064 executivos da região de Campinas aponta a média salarial para os gerentes e a tendência de migração para o interior.

EQUILÍBRIO E QUALIDADE DE VIDA

Mesmo do outro lado do mundo, Renê Marzagão lembrou de dar flores para sua esposa no aniversário dela. Na Carolina do Norte (EUA), durante o coffee break de um treinamento da multinacional em que trabalha com professores de Harvard, Marzagão ligou para a esposa, que tinha acabado de receber as flores, e deu parabéns. “Foi um momento mágico”, lembra o executivo, que engendrou uma ação organizada, coordenando fuso horário, agenda do evento e sensibilidade.

Marzagão tem 37 anos, três filhos e trabalha em Valinhos. Ele é diretor de finanças corporativas para América do Sul da Eaton, uma empresa global de gerenciamento de energia. Trabalha uma média de 9 a 10 horas por dia, sendo que 25% a 40% do seu tempo passa em viagens a negócios pela empresa. “Mas já cheguei a viajar 12 vezes em um ano para a Alemanha quando estava em outra empresa”, lembra.

No Brasil, a Eaton oferece soluções hidráulicas, componentes elétricos e sistemas de distribuição de energia, produtos para motores automotivos e para filtração industrial, além de sistemas de transmissão para veículos em geral.

Além do salário, o executivo também recebe bônus anual e incentivo de longo prazo. Entre alguns benefícios que a Eaton oferece para Marzagão estão o carro e o pagamento da academia, associados à qualidade de vida. A empresa também oferece aos seus funcionários subsídio educacional que pode chegar a 70% do valor do curso. Falar inglês e espanhol é muito importante para a multinacional.

A Eaton, diz Marzagão, valoriza a questão profissional. A empresa tem um programa corporativo de RH (Recursos Humanos) e muita preocupação com saúde do funcionário.

A empresa tem um processo anual de avaliação de desempenho, performance e nível de competência. “A Eaton desenvolveu uma métrica que mede o que o funcionário fez e como ele atingiu o resultado”, explica o executivo.

Ele coordena uma equipe de 133 pessoas na América do Sul. “Não meço o profissional pela quantidade de tempo trabalhado, mas pelo resultado. Um dos funcionários perguntou se podia trabalhar home office para entregar um relatório. Eu disse que sim. Quero reduzir as horas extras da equipe”, explica. “Além disso, o profissional tem que tirar férias”, frisa.

“Temos que ter foco, saber priorizar tarefas, gerenciar o tempo, delegar tarefas”, ensina o executivo. “Acho que a gente deveria ter também uma lista do que não fazer. Se formos abraçar tudo, mesmo se o dia tivesse 72 horas, não seriam suficientes”, brinca.

“O objetivo é tentar balancear a vida”, direciona o executivo. “O sucesso está no equilíbrio, como diz o escritor Robert Wong”,  comenta Marzagão, que também dá palestras e participa de vários órgãos, e ainda encontra tempo para rezar e estudar com os filhos durante a semana, vai na academia, joga tênis aos sábados, futebol aos domingos...

CONTRA BLINDAGEM, MERCADO REAGE COM “ALGEMAS DE OURO”

O especialista Pedro Mello, um dos coordenadores do curso CEO da FGV, em parceria com a IBE Business Education, tem estudado relatórios da Harvard University sobre o ambiente corporativo americano, que difere em pontos estratégicos ao mercado brasileiro.

Mello conhece o “lado B” americano. Além de formado em Direito pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), tem mestrado e doutorado em Economia por Chicago e pós-doutorado pela Columbia University.

Em uma pesquisa própria, Mello identifica que empresas brasileiras têm forte componente familiar e, muitas vezes, vêm de antigas estatais. Mas, nos EUA, há uma cultura de empresas sem dono. Cerca de 80% das empresas estão inseridas no mercado acionário. Lá, os executivos não são proprietários da empresa. E, neste ponto, surgem problemas para se alinhar os interesses dos donos das empresas aos executivos (agentes).

Os donos querem maximizar os valores da empresa, querem que o executivo “dê o sangue”, corra atrás de qualquer oportunidade de lucro. E se o executivo não tem o desempenho esperado, mandam o executivo embora.

Os executivos, por sua vez, têm seus interesses, querem trabalhar, ganhar o deles, mas não querem se arriscar tanto. Oferecem desempenho médio dosando o grau de comprometimento com a empresa.

“AÇÕES” CONTRA “BLINDAGEM”

Para compensar os riscos de trabalhar em um ambiente tão competitivo e arriscado, os executivos americanos passaram a se “blindar”, exigindo salários altíssimos e altos percentuais de bônus de participação nos negócios. É como se quisessem ganhar tudo de uma “tacada” só.

Em resposta, as empresas americanas começaram a dar parte do salário em “ações”. Com o risco de demissão, principalmente quando aumentou a incerteza do mercado com a crise econômica global, os executivos aceitaram a participação acionária. Na multinacional General Motors (GM), por exemplo, quando um executivo atinge um alto grau na direção, automaticamente já passa a ter ações da empresa.

“Dizemos que as empresas oferecem algemas de ouro”, define Pedro Mello. Segundo ele, o executivo acaba ficando mais ligado à empresa, sobretudo porque o resultado corporativo impacta no seu rendimento mensal e anual (bônus).

SALÁRIO MAIOR, BÔNUS MENOR

Nos EUA, com a cultura liberal fortemente baseada em resultados, os salários - que são rendimentos fixos – são menores, mas os bônus (premiações que podem ser semestrais ou anuais associadas à superação de metas) são muito maiores que os do mercado brasileiro.

As empresas financeiras americanas, sobretudo de Wall Street, têm patamares maiores de rendimentos que as empresas industriais. Mesmo assim, empresas de tecnologia da Califórnia, (empresas inovadoras, tecnologia de informação financeira e telecomunicações) estão se destacando.

Um CEO de um banco americano pode ganhar de US$ 20 a US$ 30 milhões por ano só com bônus.  Um diretor, US$ 2 milhões/ano com bônus, além do salário. E um gerente, US$ 1 milhão/ano também com premiações.

O mercado brasileiro é menos profissionalizado que o americano, segundo Pedro Mello. O executivo aqui muitas vezes é o dono da empresa. E, no geral, o salário dos executivos gira em torno de R$ 1 milhão por ano, sendo que o bônus é menor.

PESQUISA AVALIA MAIS DE MIL EXECUTIVOS NA RMC

Uma pesquisa inédita realizada pela Asap, consultoria de recrutamento e seleção de executivos, mapeou por e-mail o perfil de 1.064 profissionais, entre janeiro e março de 2013, das 19 cidades que integram a RMC (Região Metropolitana de Campinas).

A maioria dos entrevistados (52%) é da cidade de Campinas, está acima dos 41 anos (28%), é fluente em inglês (82%) e recebe entre R$ 150 mil e R$ 200 mil por ano (55%).

“Esse resultado nos chamou muita a atenção, pois o grande investimento na língua inglesa é prova de que os executivos com mais experiência estão preocupados em se preparar e competir com os novos profissionais que ingressam no mercado de trabalho”, diz Carina Budin, diretora regional da Asap.

Dentre os executivos que mudaram de cidade, os principais fatores que motivaram essa mudança foram: maiores desafios profissionais (52%), remuneração (51%) e perspectiva de ascensão na carreira (49%).

JOVENS EXECUTIVOS LAPIDADOS PARA O MERCADO

O IBEF tem um comitê voltado para jovens executivos. A meta do comitê IBEF Jovem é tornar-se uma porta de entrada para o IBEF Campinas que, como toda entidade, procura associados que possam ser lapidados como futuras lideranças. “Isso torna-se cada dia mais difícil, diante dos tantos compromissos que assumimos no dia a dia”, diz Gislaine Heitmann, presidente do IBEF Campinas.

O Instituto oferece um intenso networking, amplas possibilidades de negócios e, naturalmente, a oportunidade de atualização técnica constante em todos os segmentos, além de contar com seleta programação social. Com menos de 35 anos de idade muitos executivos já alcançaram sucesso, conseguiram traçar uma carreira ascendente e principalmente, sólida. Trata-se de um público cada vez mais preocupado com o desenvolvimento de suas equipes e empresas.

PREPARAÇÃO DE CEOS

A Fundação Getulio Vargas, via conveniada IBE – Business Education, é responsável pela realização do CEO FGV Internacional, um programa exclusivo para presidentes, vice-presidentes e diretores-gerais de empresas. Cria um ambiente de aperfeiçoamento privilegiado, reunindo líderes empresariais e um corpo docente formado por professores PhD vindo das cinco escolas da FGV. Combina palestras, discussões em grupo, exemplos reais da vida empresarial, exercícios em grupo e uma dinâmica troca de ideias entre palestrantes e participantes. São 3 módulos, cada um com cinco dias, em regime de imersão, realizados em cidades diferentes, em hotéis de excelente infraestrutura.

O CEO FGV também pode ser complementado com uma etapa internacional, não obrigatória, em regime de imersão, quando o participante tem a oportunidade de interagir com executivos do mundo todo. Os alunos podem escolher entre duas das mais conceituadas universidades do mundo em educação executiva – a Columbia University, nos Estados Unidos, e o IMD, na Suíça.

Outro programa que atende esse nicho é o MBA Executivo Global. Neste curso, os participantes reúnem-se para discutir a competição em nível mundial, os novos desafios impostos às organizações contemporâneas e os conhecimentos e habilidades que lhes são requeridos na condução de seus negócios. Promove uma reflexão abrangente e estratégica considerando o ambiente internacional, a inserção do Brasil no cenário atual e o desenvolvimento dos participantes como líderes empresariais.

Há unidades da IBE-FGV em Campinas, Americana, Limeira, Jundiaí, Piracicaba, Rio Claro e Vinhedo .

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